REVISTA VIRGÍNIA

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Histórico

Carta Aberta

Nascida em 1910 na cidade de São Paulo, Virgínia Leone Bicudo estabeleceu uma relação ousada com o pioneirismo. Filha de Giovanna Leone, imigrante italiana pobre da região da Sicília e de Teófilo Julio Bicudo, descendente de escravos. A primeira brasileira não-médica a ser reconhecida como psicanalista, e uma das responsáveis por iniciar a difusão da psicanálise no Brasil. Foi uma das primeiras professoras universitárias pretas no país e abriu caminho para o estudo sobre o racismo e as relações étnico-raciais.

Virgínia Bicudo: pioneira na psicanálise e no estudo de atitudes raciais. Foi educadora sanitária, formou-se em sociologia pela Escola Livre de Sociologia e Política (ELSP), em 1938, a única bacharela em Ciências Sociais e Políticas, numa turma de oito alunos. Sua dissertação de mestrado, em 1945, intitulada Estudo de Atitudes Raciais de Pretos e Mulatos em São Paulo, é uma produção de valor inestimável, pois marca o início dos estudos em relações étnico-raciais no Brasil.

Em meio a pesquisas e estudos conheceu Durval Marcondes, que em 1927 com Franco da Rocha fundou a Sociedade Brasileira de Psicanálise. Em 1944, Virgínia funda o Grupo Psicanalítico de São Paulo, que colaborou para a fundação da SBPSP (Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo). Em determinado momento de seu percurso chegou a ser questionada sobre sua posição enquanto analista por não ser médica.

Virgínia introduziu o pensamento Kleiniano na psicanálise em São Paulo. Obteve lugar de destaque na transmissão dos estudos sobre psicanálise com crianças no Brasil, introduzindo essa especificidade na SBPSP, onde por 14 anos contribuiu generosamente. E na década de 1970 colaborou para a fundação da Sociedade de Psicanálise de Brasília.

Compartilho esta carta aberta contando parte da história da psicanalista que dá nome a essa revista. Em uma eleição democrática chegamos a este nome que muito faz sentido para nós. Virgínia criou um movimento político na psicanálise dotado de consciência social. Ousou dar visibilidade a pautas raciais e sociais em uma época em que atitudes racistas e desigualdades sociais eram “normalizadas”.

O Ato Analítico Escola de Psicanálise propõe a formação psicanalítica implicada também nas pautas raciais e sociais. Somos um movimento político na psicanálise sobre a formação do analista. Nos reunimos para fazer escola a partir do conceito de democratização da psicanálise. Umainstituição de orientação lacaniana com estilo brasileiro. Lugar onde acolhemos o diverso, plural e singular da experiência psicanalítica e daqueles que se submetem a ela. Em 24 de setembro de 2016 iniciamos um trabalho de transmissão da psicanálise em São João de Meriti na Baixada Fluminense, região periférica do Rio de Janeiro.

Hoje o Ato Analítico está presente além dos bairros de Bangu, Tijuca e São João de Meriti no Rio de Janeiro, também nos encontramos em Maceió AL e em qualquer lugar onde há um membro associado ou participante efetivo da escola. A psicanálise é para todes que desejam e podem sustentar o desejo em sua forma singular. Jorge dos Santos Pragana Junior é psicanalista e diretor do Ato Analítico Escola de Psicanálise, mestrando em Educação, Cultura e Comunicação em Periferias Urbanas – UERJ e especialista em Psicologia da Educação.

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